sexta-feira, 20 de setembro de 2024

Álvaro de Campos: Sim, sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo

 Sim, sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo

Álvaro de Campos


Sim, sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo,

Espécie de acessório ou sobresselente próprio,

Arredores irregulares da minha emoção sincera,

Sou eu aqui em mim, sou eu.


Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou.

Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma.

Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim.


E ao mesmo tempo, a impressão, um pouco inconsequente,

Como de um sonho formado sobre realidades mistas,

De me ter deixado, a mim, num banco de carro eléctrico,

Para ser encontrado pelo acaso de quem se lhe ir sentar em cima.


E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco longínqua,

Como de um sonho que se quer lembrar na penumbra a que se acorda,

De haver melhor em mim do que eu.


Sim, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco dolorosa,

Como de um acordar sem sonhos para um dia de muitos credores,

De haver falhado tudo como tropeçar no capacho,

De haver embrulhado tudo como a mala sem as escovas,

De haver substituído qualquer coisa a mim algures na vida.


Baste! É a impressão um tanto ou quanto metafísica,

Como o sol pela última vez sobre a janela da casa a abandonar,

De que mais vale ser criança que querer compreender o mundo —

A impressão de pão com manteiga e brinquedos,

De um grande sossego sem Jardins de Prosérpina,

De uma boa vontade para com a vida encostada de testa à janela,

Num ver chover com som lá fora

E não as lágrimas mortas de custar a engolir.


Baste, sim baste! Sou eu mesmo, o trocado,

O emissário sem carta nem credenciais,

O palhaço sem riso, o bobo com o grande fato de outro,

A quem tinem as campainhas da cabeça

Como chocalhos pequenos de uma servidão em cima.


Sou eu mesmo, a charada sincopada

Que ninguém da roda decifra nos serões de província.


Sou eu mesmo, que remédio!...

terça-feira, 10 de setembro de 2024

Leopardi: Pensamentos

Não há sinal maior de ser pouco filósofo e pouco sábio do que desejar sábia e filosófica toda a vida.
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Nada é mais raro no mundo do que uma pessoa habitualmente suportável.
***

Vi, em Florença, uma pessoa que, puxando uma carroça cheia de coisas, feito um animal de tração, como se usa ali, caminhava com grande soberba, gritando e ordenando que os transeuntes dessem passagem. E pareceu-me o símbolo de muitos que caminham cheios de orgulho, insultando os outros por razões não diferentes da que causava soberba naquele homem, ou seja, puxar uma carroça.
***


Leopardi: Pensamentos

Acontece na conversa o que acontece com os escritores, muitos dos quais, a princípio, considerados novos de ideias e capazes de exprimi-las originalmente, agradam muito; depois, na medida em que os lemos, entediam-nos, pois parte de seus escritos é imitação da outra. Assim é ao conversar: as pessoas novas muitas vezes são elogiadas e apreciadas por seus modos e discursos e, com o convívio, causam tédio e caem na estima, pois os homens, alguns menos e outros mais, quando não imitam os outros, necessariamente são imitadores de si mesmos. Porém, os que viajam, especialmente se são homens de algum engenho e dominam a arte de conversar, deixam facilmente de si, nos lugares por onde passam, uma opinião muito superior à verdadeira, pela oportunidade que têm de esconder o que é um defeito ordinário dos espíritos, isto é, a pobreza. Isso porque se acredita que aquilo que ele mostra em uma ou em poucas ocasiões, falando principalmente de assuntos pertinentes a si, nos quais, mesmo sem usar artifícios, é conduzido pela cortesia e pela curiosidade dos outros, não seja a sua riqueza toda, mas uma mínima parte dela, ou melhor, o dinheiro a gastar no dia e não, como frequentemente é, a soma toda ou grande parte dela. Essa crença permanece estável por falta de ocasiões que a destruam. Por outro lado, causas símiles fazem com que os viajantes estejam sujeitos a errar, superestimando pessoas com poucas capacidades, as quais surgem em seu caminho nas viagens.

domingo, 8 de setembro de 2024

Torquato Neto: Cogito

Cogito
Torquato Neto

eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível

eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora

eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim

eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranqüilamente
todas as horas do fim.

sábado, 7 de setembro de 2024

W. B. Yeats: Nenhuma Tróia a mais

Nenhuma Tróia a mais
W. B. Yeats

Por que culpá-la se ela encheu meus dias
De mágoa, ou se incitou às tropelias
Os ignorantes e jogou com vidas,
Pondo as vielas contra as avenidas,
Quando eles tinham ousadia e flama?
Como fugir a essa pulsão funesta
Que a nobreza fez simples como a chama?
Beleza como um arco tenso, raça
Estranha a uma era como esta,
E cruel, de tão alta e singular?
Que poderia ela contra a graça?
Que Tróia a mais teria que incendiar?