sexta-feira, 30 de agosto de 2024

Gilka Machado: Poema de Amor

Poema de Amor
Gilka Machado

VII
Na plena solidão de um amplo descampado
penso em ti e que tu pensas em mim suponho;
tenho toda a feição de um arbusto isolado,
abstrato o olhar, entregue à delícia de um sonho.

O vento, sob o céu de brumas carregado,
passa, ora langoroso, ora forte, medonho!
e tanto penso em ti, ó meu ausente amado,
que te sinto no vento e a ele, feliz, me exponho!

Com carícias brutas e com carícias mansas,
cuido que tu me vens, julgo-me apenas tua,
— sou árvore a oscilar, meus cabelos são franças.

E não podes saber do meu gozo violento
quando me fico, assim, neste ermo, toda nua,
completamente exposta à volúpia do vento!

Gilka Machado: Sensual

 


quarta-feira, 28 de agosto de 2024

Gilka Machado: "Saudades"

Saudades
Gilka Machado

De quem é esta saudade
que meus silêncios invade,
que de tão longe me vem?

De quem é esta saudade,
de quem?

Aquelas mãos só carícias,
Aqueles olhos de apelo,
aqueles lábios-desejo...

E estes dedos engelhados,
e este olhar de vã procura,
e esta boca sem um beijo...

De quem é esta saudade
que sinto quando me vejo 

sábado, 24 de agosto de 2024

Antônio Cícero: Medusa

Medusa

Antônio Cícero


Cortei a cabeça da Medusa

por inveja. Quis eu mesmo o olhar

sem olhos que vê e se recusa

a ser visto e desse modo faz

das demais pessoas pedras: pedras

sim, preciosas, da mais pura água,

onde o olhar mergulha até a medula,

diáfanas, translúcidas, cegas.

Refleti muito, antes. Na verdade

estes meus olhos provêm de carne

de mulher, não do nada imortal

da divindade. Como encarar

com eles a Górgona? Mas mal

pensando assim, lembrei ser mortal

ela também: e seu pai é um deus

do mar mas eu sou filho de Zeus.

Mesmo assim não quis enfrentá-la olhos

nos olhos. Peguei emprestado o espelho

da minha irmã e adentrei o cômodo

da Medusa de soslaio, vendo

tudo por reflexos: o seu corpo

em terceiro plano, atrás de heróis

de pedra e dos meus olhos esconsos

em primeiríssimo. Eis o corte

da lâmina especular: do lado

de cá eu, sem corpo, a olhar; do outro

lado eu, olho olhado, olho enviesado

e rosto e corpo entre muitos corpos,

um dos quais o dela. A mesma lâmina

decapitou-a também: do lado

de cá guardo seu olhar e faina;

e lá jaz seu vulto desalmado.

Mas nada é tão simples. Do pescoço

cortado nasceu um cavalo de asas

(é que o deus do mar a engravidara)

e mergulhou no horizonte em fogo

crepuscular. Contam que, no monte

Hélicon, seu coice abriu uma fonte.

A ser não sendo, de madrugada

levanto com sede dessa água.

Rainer Maria Rilke: Sonetos a Orfeu, 4, parte 2

Sonetos a Orfeu, 4, parte 2
Rainer Maria Rilke


Eis o animal que não existe!

Eles não sabiam, mas em todo caso

O amaram — suas andanças, sua postura

Seu pescoço, até a luz de seu olhar tranquilo


Certamente não existiu. Mas porque o amaram,

Tornou-se puro animal. Deixaram sempre espaço.

E, no espaço, levantou ligeiramente a cabeça,

Calmo e contido, mal necessitava


Ser. Eles não o nutriram de grão

Apenas, para sempre, da possibilidade de ser.

E essa deu tamanha força ao animal


Que ele fez brotar de sua testa um corno. Unicórnio.

Passou por uma virgem, todo branco —

E existiu no espelho de prata e nela.

Yannis Ritsos: Alcmena

Alcmena
Yannis Ritsos

Ela, que naquela noite dormiu com um deus 

sem o saber — só o seu cheiro de macho 

e o seu peito largo e peludo, quase o mesmo do marido, 

e, no entanto, tão diferente, levou-a a suspeitar de alguma coisa —, 

ela ia agora ter de deitar com um simples homem?

E o que importavam agora os 

presentes de Anfitrião, ou mesmo os doze trabalhos que tornariam 

seu filho imortal, e a ela também, por conseqüência?

Ela só relembra uma noite, aquela, e espera por 

uma noite apenas, de novo, na hora em que lá fora, no jardim, 

a Grande Ursa brilha ao lado de Órion, prateado.

— Ó, deus, que cheiro doce tinham aquelas rosas!

Ela se arruma, quando o marido sai. Está sempre pronta.

Depois do banho, põe seus brincos de novo, suas pulseiras, 

deixa-se ficar nua na frente do espelho, escovando seu cabelo, 

longo ainda, espesso ainda, mas já pintado, seco, sem o antigo viço.

Konstantinos Kaváfis: "Ítacas"

 Ítacas
Konstantinos Kaváfis

Quando, de volta, viajares para Ítaca
roga que tua rota seja longa,
repleta de peripécias, repleta de conhecimentos.
Aos Lestrigões, aos Cíclopes,
ao colério Posêidon, não temas:
tais prodígios jamais encontrará em teu roteiro,
se mantiveres altivo o pensamento e seleta
a emoção que tocar teu alento e teu corpo.
Nem Lestrigões nem Cíclopes,
nem o áspero Posêidon encontrarás,
se não os tiveres imbuído em teu espírito,
se teu espírito não os suscitar diante de ti.

Roga que tua rota seja longa,
que, múltiplas se sucedam as manhãs de verão.
Com que euforia, com que júbilo extremo
entrarás, pela primeira vez num porto ignoto!
Faze escala nos empórios fenícios para arrematar mercadorias belas;
madrepérolas e corais, âmbares e ébanos
e voluptuosas essências aromáticas, várias,
tantas essências, tantos arômatos, quantos puderes achar.
 
Detém-te nas cidades do Egito -nas muitas cidades-
para aprenderes coisas e mais coisas com os sapientes zelosos.
Todo tempo em teu íntimo Ítaca estará presente.
Tua sina te assina esse destino,
mas não busques apressar tua viagem.
É bom que ela tenha uma crônica longa, duradoura,
e que aportes velho, finalmente, à ilha,
rico do muito que ganhares no decurso do caminho,
sem esperares de Ítaca riquezas.
Ítaca te deu essa beleza de viagem.
Sem ela não a terias empreendido.
Nada mais precisa dar-te.
Se te parece pobre, Ítaca não te iludiu.
Agora tão sábio, tão plenamente vivido,
bem compreenderás o sentido das Ítacas.

domingo, 18 de agosto de 2024

Konstantinos Kaváfis: “Os Cavalos de Aquiles”

 Os Cavalos de Aquiles
Konstantinos Kaváfis

Quando viram o herói, Pátroclo, morto
– tão moço e tão audaz, tão sem receio –
choraram os cavalos do Peleio
Aquiles. Rebelava-se a imortal
natura deles, vendo a obra mortal.
Cabeças agitadas, crinas bastas,
choravam, a bater no solo os cascos.
Pátroclo extinto (os dois sentiam), sem ânima,
carne cadaverosa, vã, inânime,
sem fôlego vital, inerme, inócua,
devolta finalmente ao Grande Vácuo.

Do pranto dos corcéis imortais, dói-se
Zeus, recordando as bodas de Peleu:
“Teria sido melhor – foi erro meu –
não ter-vos doado, míseros cavalos!
Que faríeis nos tristíssimos convales
da terra, entre os mortais à Moira e à sorte
dados, vós que a velhice poupa, e a morte,
a sofrer fátua pena? Os aranzéis
da humana dor vos prendem.” Os corcéis
porém, de nobilíssima natura,
choram a morte eterna e a desventura.

W. H. Auden: “O Escudo de Aquiles”

 O escudo de Aquiles
W. H. Auden

Por cima do ombro dele buscava
    Ela vinhedos com oliveiras,
Barcos cruzando mares indômitos
    E cidades de mármore, ordeiras.
Mas ali, no luzente metal,
    As mãos dele haviam posto, juntos,
Uma vastidão artificial
    E um céu feito de chumbo.

Uma planície parda, nua, sem qualquer
    Folha de relva ou sinal de habitação,
Nada de comer, nem onde sentar sequer;
    Reunida porém naquela desolação,
    Uma ininteligível multidão,
Um milhão de olhos e de botas perfilando-se,
Sem expressão, à espera da ordem de comando.

Vinda do espaço, uma voz sem rosto mostrava,
    Monótona e árida como o próprio lugar,
Ser justa, por estatística, uma certa causa.
    Não se ouviu ninguém discutir ou aclamar;
    Coluna após coluna, nuvem de pó no ar,
Foram-se marchando, submissos a uma fé
Cuja lógica os levou, alhures, ao revés

Por cima do ombro dele buscava
    Ela devotamentos rituais
E novilhas com guirlandas de alvas
    Flores, libações sacrificiais,
Mas ali, no luzente metal,
    Em vez de altar avistou somente,
À luz fremente da forja dele,
    Uma cena muito diferente.

Área cercada de arame farpado; dentro,
    Oficiais passeavam seu tédio (fez piada, um);
Sentinelas suavam no calor intenso:
    Imóvel, uma turba de gente comum
    Olhava de fora, sem comentário algum,
Três pálidas figuras serem amarradas
A três estacas em pé, no chão fincadas.

A massa e majestade deste mundo, tudo
    Quanto tenha algum peso e pese sempre o mesmo
Está na mão dos outros; eles eram miúdos,
    Não podiam esperar ajuda, que não veio;
    O que seus inimigos queriam já foi feito,
E o pior: perderam o seu próprio orgulho, mortos
Como homens bem antes da morte dos seus corpos.

Por cima do ombro dele buscava
    Atletas entregues aos seus jogos,
Homens e mulheres a mover
    Seus membros docemente no compasso
Da música, cada vez mais rápido.
    Mas no escudo luzente não tinha
A mão dele pintado uma dança
    E sim um campo de ervas daninhas.

Só, sem rumo, um garoto de roupa esfarrapada
    Vagava por aquele ermo, de onde à sua certeira
Pedra uma ave fugira: que moças são violadas
    E que dois meninos esfaquearam um terceiro,
    Eram-lhe axiomas; nada sabiam a respeito
De outros mundos onde as promessas se cumprissem
E onde se chorava se a outrem chorar se visse.

Hefaísto, o armeiro de delgados
    Lábios, foi-se embora manquejando,
Tétis, a dos seios reluzentes,
    Deu um grito de espanto
Diante do que o deus forjara a fim
    De agradar ao filho dela, o forte
Aquiles férreo matador de homens,
    Que tão breve encontraria a morte

quinta-feira, 15 de agosto de 2024

Gilberto Gil: Tempo Rei

Tempo Rei

Gilberto Gil



Não me iludo

Tudo permanecerá do jeito que tem sido
Transcorrendo, transformando
Tempo e espaço navegando todos os sentidos

Pães de Açúcar, Corcovados
Fustigados pela chuva e pelo eterno vento
Água mole, pedra dura
Tanto bate que não restará nem pensamento

Tempo rei, ó, tempo rei, ó, tempo rei
Transformai as velhas formas do viver
Ensinai-me, ó, pai, o que eu ainda não sei
Mãe Senhora do Perpétuo, socorrei

Pensamento
Mesmo o fundamento singular do ser humano
De um momento para o outro
Poderá não mais fundar nem gregos, nem baianos

Mães zelosas, pais corujas
Vejam como as águas de repente, ficam sujas
Não se iludam, não me iludo
Tudo agora mesmo pode estar por um segundo

Tempo rei, ó, tempo rei, ó, tempo rei
Transformai as velhas formas do viver
Ensinai-me, ó, pai, o que eu ainda não sei
Mãe Senhora do Perpétuo, socorrei

Tempo rei, ó, tempo rei, ó, tempo rei
Tempo rei, ó, tempo rei, ó, tempo rei
Tempo rei, ó, tempo rei, ó, tempo rei
Tempo rei, ó, tempo rei, ó, tempo rei

Paul Valéry: Os bordados de Marie Monnier

Os bordados de Marie Monnier
Paul Valéry

        Dentre as coisas preciosas, umas são produto de um encontro raríssimo de circunstâncias favoráveis: os diamantes, a felicidade e certas emoções muito puras pertencem a esta espécie.
Mas as outras são formadas pela acumulação de uma infinidade de eventos imperceptíveis e contribuições elementares, que absorvem um tempo muito longo e que exigem tanta calma quanto tempo. As pérolas finas, os vinhos profundos e maduros, as pessoas verdadeiramente. consumadas fazem pensar num lento entesouramento de causas sucessivas e semelhantes; a duração do acréscimo de sua excelência tem a perfeição por limite.
        O homem, outrora, imitava essa paciência. Iluminuras; marfins profundamente entalhados; pedras duras perfeitamente polidas e nitidamente gravadas; laques e pinturas obtidos pela superposição de uma quantidade de camadas finas e translúcidas; sonetos amorosamente aguardados, voluntariamente retidos, indefinidamente retomados pelo poeta — todas essas produções de uma indústria obstinada e virtuosa não se fabricam mais, e foi-se o tempo em que o tempo não contava. O homem de hoje não cultiva o que não pode ser abreviado. Dir-se-ia que o enfraquecimento nos espiritos da idéia de eternidade coincide com o desgosto crescente com as tarefas longas. Não suportamos mais formar um valor inestimável por meio de um trabalho igual e indefinido como o da natureza. A espera e a constância pesam à nossa época, que tenta livrar-se de sua obra a grandes gastos de energia...
        Mas considerem estes painéis maravilhosamente coloridos. Seu brilho aparenta-os as mais rubras produções da vida — aos élitros, às plumas dos pássaros, às conchas, às pétalas.
Nenhuma pintura pode atingir às forças e às delicadezas que os fios de seda tingida, sabiamente associados, fazem aparecer. O ponto acrescido ao ponto compõe insidiosamente uma substância suntuosa. Mesmo a carne é imitada admiravelmente, e a modelagem de um ombro ou de um seio é fruto delicioso de não se sabe quais artifícios de uma agulha.
        A bordadeira escolheu seus pretextos em alguns poemas.
        Não reclamou nem do esforço nem da duração. Estas belas páginas tecidas de ouro e de seda consumiram vários anos. Há sacrifício e paradoxo sob esta obra de graça e magnificência, na qual a obstinação do inseto e a ambição fixa do místico se combinam no esquecimento de si mesmo e de tudo que não é o que se almeja.

Camadas filosóficas na literatura fantástica: o caso do espelho

Em seu conto “Carta de um louco”, publicado em 1885, Guy de Maupassant põe-nos diante da inquietante relação que estabelecemos com aquilo que observamos diante de um espelho. Antes dele, Machado de Assis analisara nossa relação com o espelho em seu conto “O espelho”, publicado em 1882, formulando o que o subtítulo anuncia como um “esboço de uma nova teoria sobre a alma humana”. Também Guimarães Rosa envereda pelo mesmo tema em conto de mesmo título — “O espelho” —, conto que aloja-se no centro das narrativas incluídas no livro Primeiras Estórias. Nesta comunicação, pretende-se sondar algumas das camadas filosóficas que poderíamos delinear a partir da leitura dos três contos mencionados. Isto é, que tipo de orientação metafísica se encontraria subjacente ao tratamento dedicado à nossa relação com o espelho por parte de Guy de Maupassant, Machado de Assis e Guimarães Rosa? Como, e em quais bases, cada um deles equaciona as doses de ilusão e desilusão em que um espelho é capaz de nos abismar? Nos termos de Todorov, estaríamos diante do dilema proposto pelo fantástico (acreditar ou não acreditar?), ou diante da união impossível proposta pelo maravilhoso (acreditar sem acreditar verdadeiramente)? É possível decidir tais questões?

Atualização: resumo aprovado para o congresso! Apresentação em outubro!

terça-feira, 13 de agosto de 2024

Antônio Cícero: "Tâmiris"

Tâmiris
Antonio Cícero

 Jamais poeta algum houve mais alto
do que Tâmiris, o trácio, rival
de Orfeu, cujo canto é capaz de dar
saudade do que nunca nos foi dado
salvo reflexo em verso de cristal.
Se um mortal alcançasse ser feliz,
tal seria Tâmiris: quem o vir
deitado sobre a grama com o rapaz
(digno, pela beleza, de dormir
nos braços do próprio Apolo) que o ama
e cujos cabelos Zéfiro afaga
com dedos volúveis, há de convir
comigo em que é assim, a menos que haja
visto, no rio em que agora mergulham
ou na relva que ao sol dourada ondula
no antebraço do moço à beira d’água
ou na ode em que essa manhã fulgura
e foge para sempre, agora e aqui
refolharem-se o passado, o porvir,
o alhures: tantas trevas na medula
da luz. Já Tâmiris quer possuir
as Musas que o possuem. É seu fado
desafiá-las e perder: insensato,
esplêndido, cego, cheio de si.

sexta-feira, 9 de agosto de 2024

Vinícius de Moraes: "O Haver" (2)

 O Haver
Vinícius de Moraes


Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
Perdoai! Eles não têm culpa de ter nascido

Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo que existe

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do infinito
Essa gagueira infantil de quem quer balbuciar o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius

Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano, ou essa súbita alegria
Ao ouvir na madrugada passos que se perdem sem memória

Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera cega em face da injustiça e do mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de sua inútil poesia e sua força inútil

Resta esse sentimento da infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa tola capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem de comprometer-se sem necessidade

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo esse desejo de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não têm ontem nem hoje

Resta essa faculdade incoercível de sonhar
E transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante

E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança

Resta essa obstinação em não fugir do labirinto
Na busca desesperada de alguma porta quem sabe inexistente
E essa coragem indizível diante do grande medo
E ao mesmo tempo esse terrível medo de renascer dentro da treva

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem história
Resta essa pobreza intrínseca, esse orgulho, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino

Resta essa fidelidade à mulher e ao seu tormento
Esse abandono sem remissão à sua voragem insaciável
Resta esse eterno morrer na cruz de seus braços
E esse eterno ressuscitar para ser recrucificado

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, esse fascínio
Pelo momento a vir, quando, emocionada
Ela virá me abrir a porta como uma velha amante
Sem saber que é a minha mais nova namorada