sexta-feira, 30 de agosto de 2024
Gilka Machado: Poema de Amor
quarta-feira, 28 de agosto de 2024
Gilka Machado: "Saudades"
sábado, 24 de agosto de 2024
Antônio Cícero: Medusa
Medusa
Antônio Cícero
Cortei a cabeça da Medusa
por inveja. Quis eu mesmo o olhar
sem olhos que vê e se recusa
a ser visto e desse modo faz
das demais pessoas pedras: pedras
sim, preciosas, da mais pura água,
onde o olhar mergulha até a medula,
diáfanas, translúcidas, cegas.
Refleti muito, antes. Na verdade
estes meus olhos provêm de carne
de mulher, não do nada imortal
da divindade. Como encarar
com eles a Górgona? Mas mal
pensando assim, lembrei ser mortal
ela também: e seu pai é um deus
do mar mas eu sou filho de Zeus.
Mesmo assim não quis enfrentá-la olhos
nos olhos. Peguei emprestado o espelho
da minha irmã e adentrei o cômodo
da Medusa de soslaio, vendo
tudo por reflexos: o seu corpo
em terceiro plano, atrás de heróis
de pedra e dos meus olhos esconsos
em primeiríssimo. Eis o corte
da lâmina especular: do lado
de cá eu, sem corpo, a olhar; do outro
lado eu, olho olhado, olho enviesado
e rosto e corpo entre muitos corpos,
um dos quais o dela. A mesma lâmina
decapitou-a também: do lado
de cá guardo seu olhar e faina;
e lá jaz seu vulto desalmado.
Mas nada é tão simples. Do pescoço
cortado nasceu um cavalo de asas
(é que o deus do mar a engravidara)
e mergulhou no horizonte em fogo
crepuscular. Contam que, no monte
Hélicon, seu coice abriu uma fonte.
A ser não sendo, de madrugada
levanto com sede dessa água.
Rainer Maria Rilke: Sonetos a Orfeu, 4, parte 2
Eis o animal que não existe!
Eles não sabiam, mas em todo caso
O amaram — suas andanças, sua postura
Seu pescoço, até a luz de seu olhar tranquilo
Certamente não existiu. Mas porque o amaram,
Tornou-se puro animal. Deixaram sempre espaço.
E, no espaço, levantou ligeiramente a cabeça,
Calmo e contido, mal necessitava
Ser. Eles não o nutriram de grão
Apenas, para sempre, da possibilidade de ser.
E essa deu tamanha força ao animal
Que ele fez brotar de sua testa um corno. Unicórnio.
Passou por uma virgem, todo branco —
E existiu no espelho de prata e nela.
Yannis Ritsos: Alcmena
Ela, que naquela noite dormiu com um deus
sem o saber — só o seu cheiro de macho
e o seu peito largo e peludo, quase o mesmo do marido,
e, no entanto, tão diferente, levou-a a suspeitar de alguma coisa —,
ela ia agora ter de deitar com um simples homem?
E o que importavam agora os
presentes de Anfitrião, ou mesmo os doze trabalhos que tornariam
seu filho imortal, e a ela também, por conseqüência?
Ela só relembra uma noite, aquela, e espera por
uma noite apenas, de novo, na hora em que lá fora, no jardim,
a Grande Ursa brilha ao lado de Órion, prateado.
— Ó, deus, que cheiro doce tinham aquelas rosas!
Ela se arruma, quando o marido sai. Está sempre pronta.
Depois do banho, põe seus brincos de novo, suas pulseiras,
deixa-se ficar nua na frente do espelho, escovando seu cabelo,
longo ainda, espesso ainda, mas já pintado, seco, sem o antigo viço.
Konstantinos Kaváfis: "Ítacas"
domingo, 18 de agosto de 2024
Konstantinos Kaváfis: “Os Cavalos de Aquiles”
W. H. Auden: “O Escudo de Aquiles”
quinta-feira, 15 de agosto de 2024
Gilberto Gil: Tempo Rei
Tempo Rei
Gilberto Gil
Não me iludo
Paul Valéry: Os bordados de Marie Monnier
Dentre as coisas preciosas, umas são produto de um encontro raríssimo de circunstâncias favoráveis: os diamantes, a felicidade e certas emoções muito puras pertencem a esta espécie.
Mas as outras são formadas pela acumulação de uma infinidade de eventos imperceptíveis e contribuições elementares, que absorvem um tempo muito longo e que exigem tanta calma quanto tempo. As pérolas finas, os vinhos profundos e maduros, as pessoas verdadeiramente. consumadas fazem pensar num lento entesouramento de causas sucessivas e semelhantes; a duração do acréscimo de sua excelência tem a perfeição por limite.
Nenhuma pintura pode atingir às forças e às delicadezas que os fios de seda tingida, sabiamente associados, fazem aparecer. O ponto acrescido ao ponto compõe insidiosamente uma substância suntuosa. Mesmo a carne é imitada admiravelmente, e a modelagem de um ombro ou de um seio é fruto delicioso de não se sabe quais artifícios de uma agulha.
Camadas filosóficas na literatura fantástica: o caso do espelho
Em seu conto “Carta de um louco”, publicado em 1885, Guy de Maupassant põe-nos diante da inquietante relação que estabelecemos com aquilo que observamos diante de um espelho. Antes dele, Machado de Assis analisara nossa relação com o espelho em seu conto “O espelho”, publicado em 1882, formulando o que o subtítulo anuncia como um “esboço de uma nova teoria sobre a alma humana”. Também Guimarães Rosa envereda pelo mesmo tema em conto de mesmo título — “O espelho” —, conto que aloja-se no centro das narrativas incluídas no livro Primeiras Estórias. Nesta comunicação, pretende-se sondar algumas das camadas filosóficas que poderíamos delinear a partir da leitura dos três contos mencionados. Isto é, que tipo de orientação metafísica se encontraria subjacente ao tratamento dedicado à nossa relação com o espelho por parte de Guy de Maupassant, Machado de Assis e Guimarães Rosa? Como, e em quais bases, cada um deles equaciona as doses de ilusão e desilusão em que um espelho é capaz de nos abismar? Nos termos de Todorov, estaríamos diante do dilema proposto pelo fantástico (acreditar ou não acreditar?), ou diante da união impossível proposta pelo maravilhoso (acreditar sem acreditar verdadeiramente)? É possível decidir tais questões?
Atualização: resumo aprovado para o congresso! Apresentação em outubro!
