sexta-feira, 22 de novembro de 2024

Pedro Carné: Roma

Roma

Pedro Carné


Nas catacumbas de uma cidade antiga

Buscamos o mais lascivo dos prazeres:

O animalesco ato que a ruína abriga,

A pura satisfação de todos os quereres.


Lutando contra o tempo que nos obriga

A responder aos mais frívolos deveres,

Nas ruínas daquela cidade mais antiga

Encontramos o mais lascivo dos prazeres.


Que desejo é esse que nos atravessa,

E que mantem seu calor mais constante;

Com quem aprendemos que desinteressa

Tudo que esteja para além do instante?


Esse desejo descumpre toda promessa,

Ele se recusa a prometer qualquer fim.

Esse desejo faz-me dizer, com pressa:

Pelo amor de Deus: arqueie-se para mim.

quinta-feira, 3 de outubro de 2024

W. B. Yeats: Leda e o Cisne

Leda e o Cisne
W. B. Yeats

Um baque surdo. A asa enorme ainda se abate
Sobre a moça que treme. Em suas coxas o peso
Da palma escura acariciante. O bico preso
À nuca, contra o peito o peito se debate. 

Como podem os pobres dedos sem vigor
Negar à glória e à pluma as coxas que se vão
Abrindo e como, entregue a tão branco furor,
Não sentir o pulsar do estranho coração?

Um frêmito nos rins haverá de engendrar
Os muros em ruína, a torre, o teto a arder
E Agamemnon, morrendo.
Ela, tão sem defesa,

Violentada pelo bruto sangue do ar,
Se impregnaria de tal força e tal saber
Antes que o bico inerte abandonasse a presa?

Torquato Neto: Pra dizer adeus

Pra dizer adeus
Torquato Neto

Adeus
Vou prá não voltar
E onde quer que eu vá
Sei que vou sózinho

Tão sozinho amor
Nem é bom pensar
Que eu não volto mais
Desse meu caminho

Ah! pena eu não saber
Como te contar
Que esse amor foi tanto
E no entanto eu queria dizer

Vem
Eu só sei dizer
Vem
Nem que seja só
Pra dizer adeus



sexta-feira, 20 de setembro de 2024

Álvaro de Campos: Sim, sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo

 Sim, sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo

Álvaro de Campos


Sim, sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo,

Espécie de acessório ou sobresselente próprio,

Arredores irregulares da minha emoção sincera,

Sou eu aqui em mim, sou eu.


Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou.

Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma.

Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim.


E ao mesmo tempo, a impressão, um pouco inconsequente,

Como de um sonho formado sobre realidades mistas,

De me ter deixado, a mim, num banco de carro eléctrico,

Para ser encontrado pelo acaso de quem se lhe ir sentar em cima.


E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco longínqua,

Como de um sonho que se quer lembrar na penumbra a que se acorda,

De haver melhor em mim do que eu.


Sim, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco dolorosa,

Como de um acordar sem sonhos para um dia de muitos credores,

De haver falhado tudo como tropeçar no capacho,

De haver embrulhado tudo como a mala sem as escovas,

De haver substituído qualquer coisa a mim algures na vida.


Baste! É a impressão um tanto ou quanto metafísica,

Como o sol pela última vez sobre a janela da casa a abandonar,

De que mais vale ser criança que querer compreender o mundo —

A impressão de pão com manteiga e brinquedos,

De um grande sossego sem Jardins de Prosérpina,

De uma boa vontade para com a vida encostada de testa à janela,

Num ver chover com som lá fora

E não as lágrimas mortas de custar a engolir.


Baste, sim baste! Sou eu mesmo, o trocado,

O emissário sem carta nem credenciais,

O palhaço sem riso, o bobo com o grande fato de outro,

A quem tinem as campainhas da cabeça

Como chocalhos pequenos de uma servidão em cima.


Sou eu mesmo, a charada sincopada

Que ninguém da roda decifra nos serões de província.


Sou eu mesmo, que remédio!...

terça-feira, 10 de setembro de 2024

Leopardi: Pensamentos

Não há sinal maior de ser pouco filósofo e pouco sábio do que desejar sábia e filosófica toda a vida.
***

Nada é mais raro no mundo do que uma pessoa habitualmente suportável.
***

Vi, em Florença, uma pessoa que, puxando uma carroça cheia de coisas, feito um animal de tração, como se usa ali, caminhava com grande soberba, gritando e ordenando que os transeuntes dessem passagem. E pareceu-me o símbolo de muitos que caminham cheios de orgulho, insultando os outros por razões não diferentes da que causava soberba naquele homem, ou seja, puxar uma carroça.
***


Leopardi: Pensamentos

Acontece na conversa o que acontece com os escritores, muitos dos quais, a princípio, considerados novos de ideias e capazes de exprimi-las originalmente, agradam muito; depois, na medida em que os lemos, entediam-nos, pois parte de seus escritos é imitação da outra. Assim é ao conversar: as pessoas novas muitas vezes são elogiadas e apreciadas por seus modos e discursos e, com o convívio, causam tédio e caem na estima, pois os homens, alguns menos e outros mais, quando não imitam os outros, necessariamente são imitadores de si mesmos. Porém, os que viajam, especialmente se são homens de algum engenho e dominam a arte de conversar, deixam facilmente de si, nos lugares por onde passam, uma opinião muito superior à verdadeira, pela oportunidade que têm de esconder o que é um defeito ordinário dos espíritos, isto é, a pobreza. Isso porque se acredita que aquilo que ele mostra em uma ou em poucas ocasiões, falando principalmente de assuntos pertinentes a si, nos quais, mesmo sem usar artifícios, é conduzido pela cortesia e pela curiosidade dos outros, não seja a sua riqueza toda, mas uma mínima parte dela, ou melhor, o dinheiro a gastar no dia e não, como frequentemente é, a soma toda ou grande parte dela. Essa crença permanece estável por falta de ocasiões que a destruam. Por outro lado, causas símiles fazem com que os viajantes estejam sujeitos a errar, superestimando pessoas com poucas capacidades, as quais surgem em seu caminho nas viagens.

domingo, 8 de setembro de 2024

Torquato Neto: Cogito

Cogito
Torquato Neto

eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível

eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora

eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim

eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranqüilamente
todas as horas do fim.

sábado, 7 de setembro de 2024

W. B. Yeats: Nenhuma Tróia a mais

Nenhuma Tróia a mais
W. B. Yeats

Por que culpá-la se ela encheu meus dias
De mágoa, ou se incitou às tropelias
Os ignorantes e jogou com vidas,
Pondo as vielas contra as avenidas,
Quando eles tinham ousadia e flama?
Como fugir a essa pulsão funesta
Que a nobreza fez simples como a chama?
Beleza como um arco tenso, raça
Estranha a uma era como esta,
E cruel, de tão alta e singular?
Que poderia ela contra a graça?
Que Tróia a mais teria que incendiar?

sexta-feira, 30 de agosto de 2024

Gilka Machado: Poema de Amor

Poema de Amor
Gilka Machado

VII
Na plena solidão de um amplo descampado
penso em ti e que tu pensas em mim suponho;
tenho toda a feição de um arbusto isolado,
abstrato o olhar, entregue à delícia de um sonho.

O vento, sob o céu de brumas carregado,
passa, ora langoroso, ora forte, medonho!
e tanto penso em ti, ó meu ausente amado,
que te sinto no vento e a ele, feliz, me exponho!

Com carícias brutas e com carícias mansas,
cuido que tu me vens, julgo-me apenas tua,
— sou árvore a oscilar, meus cabelos são franças.

E não podes saber do meu gozo violento
quando me fico, assim, neste ermo, toda nua,
completamente exposta à volúpia do vento!

Gilka Machado: Sensual

 


quarta-feira, 28 de agosto de 2024

Gilka Machado: "Saudades"

Saudades
Gilka Machado

De quem é esta saudade
que meus silêncios invade,
que de tão longe me vem?

De quem é esta saudade,
de quem?

Aquelas mãos só carícias,
Aqueles olhos de apelo,
aqueles lábios-desejo...

E estes dedos engelhados,
e este olhar de vã procura,
e esta boca sem um beijo...

De quem é esta saudade
que sinto quando me vejo 

sábado, 24 de agosto de 2024

Antônio Cícero: Medusa

Medusa

Antônio Cícero


Cortei a cabeça da Medusa

por inveja. Quis eu mesmo o olhar

sem olhos que vê e se recusa

a ser visto e desse modo faz

das demais pessoas pedras: pedras

sim, preciosas, da mais pura água,

onde o olhar mergulha até a medula,

diáfanas, translúcidas, cegas.

Refleti muito, antes. Na verdade

estes meus olhos provêm de carne

de mulher, não do nada imortal

da divindade. Como encarar

com eles a Górgona? Mas mal

pensando assim, lembrei ser mortal

ela também: e seu pai é um deus

do mar mas eu sou filho de Zeus.

Mesmo assim não quis enfrentá-la olhos

nos olhos. Peguei emprestado o espelho

da minha irmã e adentrei o cômodo

da Medusa de soslaio, vendo

tudo por reflexos: o seu corpo

em terceiro plano, atrás de heróis

de pedra e dos meus olhos esconsos

em primeiríssimo. Eis o corte

da lâmina especular: do lado

de cá eu, sem corpo, a olhar; do outro

lado eu, olho olhado, olho enviesado

e rosto e corpo entre muitos corpos,

um dos quais o dela. A mesma lâmina

decapitou-a também: do lado

de cá guardo seu olhar e faina;

e lá jaz seu vulto desalmado.

Mas nada é tão simples. Do pescoço

cortado nasceu um cavalo de asas

(é que o deus do mar a engravidara)

e mergulhou no horizonte em fogo

crepuscular. Contam que, no monte

Hélicon, seu coice abriu uma fonte.

A ser não sendo, de madrugada

levanto com sede dessa água.

Rainer Maria Rilke: Sonetos a Orfeu, 4, parte 2

Sonetos a Orfeu, 4, parte 2
Rainer Maria Rilke


Eis o animal que não existe!

Eles não sabiam, mas em todo caso

O amaram — suas andanças, sua postura

Seu pescoço, até a luz de seu olhar tranquilo


Certamente não existiu. Mas porque o amaram,

Tornou-se puro animal. Deixaram sempre espaço.

E, no espaço, levantou ligeiramente a cabeça,

Calmo e contido, mal necessitava


Ser. Eles não o nutriram de grão

Apenas, para sempre, da possibilidade de ser.

E essa deu tamanha força ao animal


Que ele fez brotar de sua testa um corno. Unicórnio.

Passou por uma virgem, todo branco —

E existiu no espelho de prata e nela.

Yannis Ritsos: Alcmena

Alcmena
Yannis Ritsos

Ela, que naquela noite dormiu com um deus 

sem o saber — só o seu cheiro de macho 

e o seu peito largo e peludo, quase o mesmo do marido, 

e, no entanto, tão diferente, levou-a a suspeitar de alguma coisa —, 

ela ia agora ter de deitar com um simples homem?

E o que importavam agora os 

presentes de Anfitrião, ou mesmo os doze trabalhos que tornariam 

seu filho imortal, e a ela também, por conseqüência?

Ela só relembra uma noite, aquela, e espera por 

uma noite apenas, de novo, na hora em que lá fora, no jardim, 

a Grande Ursa brilha ao lado de Órion, prateado.

— Ó, deus, que cheiro doce tinham aquelas rosas!

Ela se arruma, quando o marido sai. Está sempre pronta.

Depois do banho, põe seus brincos de novo, suas pulseiras, 

deixa-se ficar nua na frente do espelho, escovando seu cabelo, 

longo ainda, espesso ainda, mas já pintado, seco, sem o antigo viço.

Konstantinos Kaváfis: "Ítacas"

 Ítacas
Konstantinos Kaváfis

Quando, de volta, viajares para Ítaca
roga que tua rota seja longa,
repleta de peripécias, repleta de conhecimentos.
Aos Lestrigões, aos Cíclopes,
ao colério Posêidon, não temas:
tais prodígios jamais encontrará em teu roteiro,
se mantiveres altivo o pensamento e seleta
a emoção que tocar teu alento e teu corpo.
Nem Lestrigões nem Cíclopes,
nem o áspero Posêidon encontrarás,
se não os tiveres imbuído em teu espírito,
se teu espírito não os suscitar diante de ti.

Roga que tua rota seja longa,
que, múltiplas se sucedam as manhãs de verão.
Com que euforia, com que júbilo extremo
entrarás, pela primeira vez num porto ignoto!
Faze escala nos empórios fenícios para arrematar mercadorias belas;
madrepérolas e corais, âmbares e ébanos
e voluptuosas essências aromáticas, várias,
tantas essências, tantos arômatos, quantos puderes achar.
 
Detém-te nas cidades do Egito -nas muitas cidades-
para aprenderes coisas e mais coisas com os sapientes zelosos.
Todo tempo em teu íntimo Ítaca estará presente.
Tua sina te assina esse destino,
mas não busques apressar tua viagem.
É bom que ela tenha uma crônica longa, duradoura,
e que aportes velho, finalmente, à ilha,
rico do muito que ganhares no decurso do caminho,
sem esperares de Ítaca riquezas.
Ítaca te deu essa beleza de viagem.
Sem ela não a terias empreendido.
Nada mais precisa dar-te.
Se te parece pobre, Ítaca não te iludiu.
Agora tão sábio, tão plenamente vivido,
bem compreenderás o sentido das Ítacas.