quarta-feira, 31 de julho de 2024

Charles Baudelaire: “Any where out of this world”

 Any where out of the world
Não importa onde fora do mundo
Charles Baudelaire

Esta vida é um hospital onde todos os doentes estão tomados pelo desejo de mudar de leito. Este gostaria de sofrer diante do aquecedor, e aquele acha que iria sarar-se ao lado da janela.
Parece-me que ali onde não estou eu estaria bem, e essa questão da mudança é uma que discuto constantemente com minha alma.
“Diga-me, alma minha, pobre alma enregelada, que pensaria você de morar em Lisboa? Lá deve fazer calor, e você iria revigorar-se como um lagarto. Essa cidade fica à beira d’água; dizem que foi construída em mármore, e que o povo lá tem um tal ódio do vegetal, que arranca todas as árvores. É uma paisagem ao seu gosto; uma paisagem feita de luz e mineral, e de líquido para os refletir!”
Minha alma não responde.
“Já que você gosta tanto do repouso, combinado com o espetáculo do movimento, você não quer morar na Holanda, essa terra beatífica? Talvez lhe seja aprazível essa região cuja imagem você sempre admirou nos museus. O que você pensaria de Rotterdam, você que gosta das florestas de mastros, e dos navios atracados ao pé das casas?”
Minha alma fica muda.
“Será que a Batávia seria mais atraente para você? Lá, de resto, encontraríamos o espírito da Europa combinado com a beleza tropical.”
Nem uma palavra. — Minha alma estaria morta?

“Você chegou a tal ponto de entorpecimento que só se compraz com o que lhe é maléfico? Se assim é, fujamos para países que são analogias da Morte. — Sei do que precisamos, pobre alma! Faremos nossas malas para Tornio. Podemos ir mais longe ainda, até o ponto extremo do Báltico; mais longe ainda da vida, se é possível; instalemo-nos no polo. Lá o sol apenas roça obliquamente a terra, e as lentas alternâncias de luz e noite suprimem a variedade e aumentam a monotonia, essa metade do nada. Lá, poderemos tomar longos banhos de trevas, enquanto, para nos distrair, as auroras boreais nos enviarão de tempos em tempos seus buquês rosa, como reflexos de um fogo de artifício do Inferno!”

Enfim, minha alma explode, e com sabedoria me grita: “Não importa onde! Não importa onde! Desde que seja fora deste mundo!”.

terça-feira, 30 de julho de 2024

Franz Kafka: A Partida

A Partida
Franz Kafka

Ordenei que tirassem meu cavalo da estrebaria. O criado não me entendeu. Fui pessoalmente à estrebaria, selei o cavalo e montei-o. Ouvi soar à distância uma trompa, perguntei-lhe o que aquilo significava. Ele não sabia de nada e não havia escutado nada. Perto do portão ele me deteve e perguntou:
  — Para onde cavalga, senhor?
  — Não sei direito — eu disse —, só sei que é para fora daqui, fora daqui. Fora daqui sem parar: só assim posso alcançar meu objetivo.
  — Conhece então o seu objetivo? — perguntou ele.
  — Sim — respondi. — Eu já disse: “fora-daqui”, é esse o meu objetivo.
  — O senhor não leva provisões — disse ele.
  — Não preciso de nenhuma — disse eu. — A viagem é tão longa que tenho de morrer de fome se não receber nada no caminho. Nenhuma provisão pode me salvar. Por sorte esta viagem é realmente imensa.

Wislawa Szymborska: Fim e começo

Fim e começo


Depois de cada guerra
alguém tem que fazer a faxina.
Colocar uma certa ordem
que afinal não se faz sozinha.
 
Alguém tem que jogar o entulho
para o lado da estrada
para que possam passar
os carros carregando os corpos.
 
Alguém tem que se atolar
no lodo e nas cinzas
em molas de sofás
em cacos de vidro
e em trapos ensanguentados.
 
Alguém tem que arrastar a viga
para apoiar a parede,
pôr a porta nos caixilhos,
envidraçar a janela.
 
A cena não rende foto
e leva anos.
E todas as câmeras já debandaram
para outra guerra.
 
As pontes têm que ser refeitas,
e também as estações.
De tanto arregaçá-las,
as mangas ficarão em farrapos.
 
Alguém de vassoura na mão
ainda recorda como foi.
Alguém escuta
meneando a cabeça que se safou.
Mas ao seu redor
já começam a rondar
os que acham tudo muito chato.
Às vezes alguém desenterra
de sob um arbusto
velhos argumentos enferrujados
e os arrasta para o lixão.
 
Os que sabiam
o que aqui se passou
devem dar lugar àqueles
que pouco sabem.
Ou menos que pouco.
E por fim nada mais que nada.
 
Na relva que cobriu
as causas e os efeitos
alguém deve se deitar
com um capim entre os dentes
e namorar as nuvens.

segunda-feira, 29 de julho de 2024

Walter Benjamin: Imagens de Pensamento

O bom escritor
Walter Benjamin

O bom escritor não diz mais do que aquilo que pensa. E muita coisa depende disso. É que o dizer não é apenas a expressão, mas também a realização do pensamento. Do mesmo modo, andar não é apenas a expressão do desejo de alcançar um objetivo, mas a sua realização. Já a natureza dessa realização, se ela é conforme ao seu objetivo de forma exata ou se se perde, exuberante e imprecisa, no desejo, isso depende do treino daquele que está a caminho. Quanto mais disciplinado for, evitando os movimentos supérfluos, gesticulantes e deambulantes, tanto mais cada postura do corpo se basta a si mesma, e tanto mais adequada a sua atuação. O mau escritor tem muitas ideias e esgota-se nelas, como o mau corredor, não treinado nos movimentos indolentes e impulsivos dos membros. Mas é por isso mesmo que ele nunca pode dizer sobriamente o que pensa. O dom do bom escritor é o de, pelo seu estilo, dar ao pensamento o espetáculo oferecido por um corpo treinado com inteligência e eficácia. Nunca diz mais do que aquilo que pensou. Assim, a sua escrita aproveita não ele próprio, mas tão somente aquilo que quer dizer.

domingo, 28 de julho de 2024

Pascal Mercier: Trem Noturno para Lisboa

 AS SOMBRAS DA ALMA. As histórias que os outros contam sobre nós e as histórias que nós mesmos contamos — quais delas se aproximam mais da verdade? É tão certo assim que sejam as próprias histórias? Somos autoridades para nós mesmos? Mas não é essa a questão que me preocupa. A verdadeira questão é: existe, nessas histórias, alguma diferença entre certo e errado? Nas histórias sobre coisas exteriores, sim. Mas quando tentamos compreender alguém em seu interior? Esta viagem algum dia chega a um fim? Será a alma um lugar de fatos? Ou seriam os supostos fatos apenas uma sombra fictícia das nossas histórias?

sábado, 27 de julho de 2024

Ingmar Bergman: Cenas de um casamento

Cenas de um casamento
Ingmar Bergman


 

Pedro Carné: Penélope

 

Penélope

Pedro Carné

Agora, não sei se você estará presente
Não sei mais se ainda te verei por aqui,
Nesses amplos salões onde sempre te vi
Salões em que seu cheiro já não se sente


Seria o vazio de uma angústia, somente?

Que sensação é essa que nutro por ti?

Às vezes me faz chorar, noutras me faz rir,

Qual é o nome disso que a gente sente?


Não sei. É difícil nomear o que acontece.

Capturar um sentimento que só cresce

Sem que saibamos que tamanho vai ter.


Não colhemos o fruto que amadurece,

Tampouco destecemos o que se tece,

Mas confesso: esse vazio me dá prazer.

Ulisses Rocha: Rio Acima

 Rio Acima

Ulisses Rocha



sexta-feira, 26 de julho de 2024

Charles Schultz: Peanuts

 

Walter Benjamin: Rua de Mão Única

 Solicita-se ao público que proteja as áreas plantadas


    Que coisas são “resolvidas”? Não ficam para trás todas as questões da vida vivida, como uma ramada que nos tapou a vista? Quase nunca pensamos em cortá-la, nem mesmo em desbastá-la. Continuamos o nosso caminho, deixamo-la para trás e conseguimos de fato vê-la a distância, mas de forma indistinta, como uma sombra e, assim, envolvida em enigma.

O comentário e a tradução relacionam-se com o texto como o estilo e a mimese com a natureza : o mesmo fenômeno sob pontos de vista diferentes. Na árvore do texto sagrado, ambos são apenas as folhas eternamente rumorejantes, na árvore do profano, os frutos que caem no tempo que é o seu.

Quem ama, sente-se atraído, não apenas pelos “defeitos” da amada, não só pelos tiques e pelas fraquezas de uma mulher; as rugas no rosto, as manchas hepáticas, os vestidos usados e um andar torto prendem-no a ela de forma muito mais duradoura e inexorável do que toda a beleza. Há muito tempo que se sabe isso. E por quê? Se é verdadeira a teoria que diz que a sensação não se aloja na cabeça, que sentimos uma janela, uma nuvem, uma árvore, não no cérebro, mas antes no lugar onde as vemos, então também ao olhar para a amada estamos fora de nós. Com a diferença de que, neste caso, estamos dolorosamente tensos e arrebatados. A sensação esvoaça como um bando de pássaros, ofuscada pelo esplendor da mulher. E, do mesmo modo que os pássaros procuram abrigo nos esconderijos da folhagem da árvore, assim também as sensações se refugiam na sombra das rugas, nos gestos sem graça em insignificantes máculas do corpo amado, a cujos esconderijos se acolhem em segurança. E ninguém que passe se apercebe de que é aqui, nos defeitos e nas falhas, que se aninha a emoção amorosa fulminante do adorador.

João Guimarães Rosa: Grande Sertão: Veredas

Sendo isto. Ao dôido, doideiras digo. Mas o senhor é homem sobrevindo, sensato, fiel como papel, o senhor me ouve, pensa e repensa, e rediz, então me ajuda. Assim, é como conto. Antes conto as coisas que formaram passado para mim com mais pertença. Vou lhe falar. Lhe falo do sertão. Do que não sei. Um grande sertão! Não sei. Ninguém ainda não sabe. Só umas raríssimas pessoas — e só essas poucas veredas, veredazinhas. O que muito lhe agradeço é a sua fineza de atenção.

quinta-feira, 25 de julho de 2024

Ingmar Bergman: Cenas de um casamento

Cenas de um casamento
Ingmar Bergman







 

Álvaro de Campos: Pecado Original

 Pecado Original
Álvaro de Campos

Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido? 
Será essa, se alguém a escrever, 
A verdadeira história da humanidade.

O que há é só o mundo verdadeiro, não é nós, só o mundo; 
O que não há somos nós, e a verdade está aí.

Sou quem falhei ser.
Somos todos quem nos supusemos.
A nossa realidade é o que não conseguimos nunca.

Que é daquela nossa verdade — o sonho à janela da infância? 
Que é daquela nossa certeza — o propósito à mesa de depois?

Medito, a cabeça curvada contra as mãos sobrepostas 
Sobre o parapeito alto da janela de sacada, 
Sentado de lado numa cadeira, depois de jantar.

Que é da minha realidade, que só tenho a vida? 
Que é de mim, que sou só quem existo?

Quantos Césares fui!

Na alma, e com alguma verdade; 
Na imaginação, e com alguma justiça; 
Na inteligência, e com alguma razão 
Meu Deus! Meu Deus! Meu Deus! 
Quantos Césares fui!
Quantos Césares fui!
Quantos Césares fui!

quarta-feira, 24 de julho de 2024

Octavio Paz: "Dizer: fazer"

Dizer: fazer

Octavio Paz

A Roman Jakobson

I

Entre o que vejo e digo,

entre o que digo e calo, 

entre o que calo e sonho, 

entre o que sonho e esqueço, a poesia.


Desliza 

entre o sim e o não: 

diz 

o que calo, 

cala 

o que digo, 

sonha 

o que esqueço.

Não é um dizer: 

é um fazer.

É um fazer 

que é um dizer. 

A poesia se diz e se ouve: 

é real.

E logo que digo

é real, 

se dissipa.

Assim é mais real?


2.

Ideia palpável,

palavra 

impalpável:

a poesia 

vai e vem 

entre o que é 

e o que não é.

Tece reflexos 

e os destece.

A poesia 

semeia olhos na página, 

semeia palavras nos olhos. 

Os olhos falam, 

as palavras olham, 

os olhares pensam.

Ouvir 

os pensamentos, 

ver 

o que dizemos, 

tocar 

o corpo da ideia.

Os olhos 

se fecham, 

as palavras se abrem.