quinta-feira, 25 de julho de 2024

Álvaro de Campos: Pecado Original

 Pecado Original
Álvaro de Campos

Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido? 
Será essa, se alguém a escrever, 
A verdadeira história da humanidade.

O que há é só o mundo verdadeiro, não é nós, só o mundo; 
O que não há somos nós, e a verdade está aí.

Sou quem falhei ser.
Somos todos quem nos supusemos.
A nossa realidade é o que não conseguimos nunca.

Que é daquela nossa verdade — o sonho à janela da infância? 
Que é daquela nossa certeza — o propósito à mesa de depois?

Medito, a cabeça curvada contra as mãos sobrepostas 
Sobre o parapeito alto da janela de sacada, 
Sentado de lado numa cadeira, depois de jantar.

Que é da minha realidade, que só tenho a vida? 
Que é de mim, que sou só quem existo?

Quantos Césares fui!

Na alma, e com alguma verdade; 
Na imaginação, e com alguma justiça; 
Na inteligência, e com alguma razão 
Meu Deus! Meu Deus! Meu Deus! 
Quantos Césares fui!
Quantos Césares fui!
Quantos Césares fui!

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