sexta-feira, 26 de julho de 2024

Walter Benjamin: Rua de Mão Única

 Solicita-se ao público que proteja as áreas plantadas


    Que coisas são “resolvidas”? Não ficam para trás todas as questões da vida vivida, como uma ramada que nos tapou a vista? Quase nunca pensamos em cortá-la, nem mesmo em desbastá-la. Continuamos o nosso caminho, deixamo-la para trás e conseguimos de fato vê-la a distância, mas de forma indistinta, como uma sombra e, assim, envolvida em enigma.

O comentário e a tradução relacionam-se com o texto como o estilo e a mimese com a natureza : o mesmo fenômeno sob pontos de vista diferentes. Na árvore do texto sagrado, ambos são apenas as folhas eternamente rumorejantes, na árvore do profano, os frutos que caem no tempo que é o seu.

Quem ama, sente-se atraído, não apenas pelos “defeitos” da amada, não só pelos tiques e pelas fraquezas de uma mulher; as rugas no rosto, as manchas hepáticas, os vestidos usados e um andar torto prendem-no a ela de forma muito mais duradoura e inexorável do que toda a beleza. Há muito tempo que se sabe isso. E por quê? Se é verdadeira a teoria que diz que a sensação não se aloja na cabeça, que sentimos uma janela, uma nuvem, uma árvore, não no cérebro, mas antes no lugar onde as vemos, então também ao olhar para a amada estamos fora de nós. Com a diferença de que, neste caso, estamos dolorosamente tensos e arrebatados. A sensação esvoaça como um bando de pássaros, ofuscada pelo esplendor da mulher. E, do mesmo modo que os pássaros procuram abrigo nos esconderijos da folhagem da árvore, assim também as sensações se refugiam na sombra das rugas, nos gestos sem graça em insignificantes máculas do corpo amado, a cujos esconderijos se acolhem em segurança. E ninguém que passe se apercebe de que é aqui, nos defeitos e nas falhas, que se aninha a emoção amorosa fulminante do adorador.

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