sábado, 24 de agosto de 2024

Antônio Cícero: Medusa

Medusa

Antônio Cícero


Cortei a cabeça da Medusa

por inveja. Quis eu mesmo o olhar

sem olhos que vê e se recusa

a ser visto e desse modo faz

das demais pessoas pedras: pedras

sim, preciosas, da mais pura água,

onde o olhar mergulha até a medula,

diáfanas, translúcidas, cegas.

Refleti muito, antes. Na verdade

estes meus olhos provêm de carne

de mulher, não do nada imortal

da divindade. Como encarar

com eles a Górgona? Mas mal

pensando assim, lembrei ser mortal

ela também: e seu pai é um deus

do mar mas eu sou filho de Zeus.

Mesmo assim não quis enfrentá-la olhos

nos olhos. Peguei emprestado o espelho

da minha irmã e adentrei o cômodo

da Medusa de soslaio, vendo

tudo por reflexos: o seu corpo

em terceiro plano, atrás de heróis

de pedra e dos meus olhos esconsos

em primeiríssimo. Eis o corte

da lâmina especular: do lado

de cá eu, sem corpo, a olhar; do outro

lado eu, olho olhado, olho enviesado

e rosto e corpo entre muitos corpos,

um dos quais o dela. A mesma lâmina

decapitou-a também: do lado

de cá guardo seu olhar e faina;

e lá jaz seu vulto desalmado.

Mas nada é tão simples. Do pescoço

cortado nasceu um cavalo de asas

(é que o deus do mar a engravidara)

e mergulhou no horizonte em fogo

crepuscular. Contam que, no monte

Hélicon, seu coice abriu uma fonte.

A ser não sendo, de madrugada

levanto com sede dessa água.

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