sábado, 24 de agosto de 2024

Rainer Maria Rilke: Sonetos a Orfeu, 4, parte 2

Sonetos a Orfeu, 4, parte 2
Rainer Maria Rilke


Eis o animal que não existe!

Eles não sabiam, mas em todo caso

O amaram — suas andanças, sua postura

Seu pescoço, até a luz de seu olhar tranquilo


Certamente não existiu. Mas porque o amaram,

Tornou-se puro animal. Deixaram sempre espaço.

E, no espaço, levantou ligeiramente a cabeça,

Calmo e contido, mal necessitava


Ser. Eles não o nutriram de grão

Apenas, para sempre, da possibilidade de ser.

E essa deu tamanha força ao animal


Que ele fez brotar de sua testa um corno. Unicórnio.

Passou por uma virgem, todo branco —

E existiu no espelho de prata e nela.

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