sábado, 24 de agosto de 2024

Yannis Ritsos: Alcmena

Alcmena
Yannis Ritsos

Ela, que naquela noite dormiu com um deus 

sem o saber — só o seu cheiro de macho 

e o seu peito largo e peludo, quase o mesmo do marido, 

e, no entanto, tão diferente, levou-a a suspeitar de alguma coisa —, 

ela ia agora ter de deitar com um simples homem?

E o que importavam agora os 

presentes de Anfitrião, ou mesmo os doze trabalhos que tornariam 

seu filho imortal, e a ela também, por conseqüência?

Ela só relembra uma noite, aquela, e espera por 

uma noite apenas, de novo, na hora em que lá fora, no jardim, 

a Grande Ursa brilha ao lado de Órion, prateado.

— Ó, deus, que cheiro doce tinham aquelas rosas!

Ela se arruma, quando o marido sai. Está sempre pronta.

Depois do banho, põe seus brincos de novo, suas pulseiras, 

deixa-se ficar nua na frente do espelho, escovando seu cabelo, 

longo ainda, espesso ainda, mas já pintado, seco, sem o antigo viço.

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