domingo, 18 de agosto de 2024

W. H. Auden: “O Escudo de Aquiles”

 O escudo de Aquiles
W. H. Auden

Por cima do ombro dele buscava
    Ela vinhedos com oliveiras,
Barcos cruzando mares indômitos
    E cidades de mármore, ordeiras.
Mas ali, no luzente metal,
    As mãos dele haviam posto, juntos,
Uma vastidão artificial
    E um céu feito de chumbo.

Uma planície parda, nua, sem qualquer
    Folha de relva ou sinal de habitação,
Nada de comer, nem onde sentar sequer;
    Reunida porém naquela desolação,
    Uma ininteligível multidão,
Um milhão de olhos e de botas perfilando-se,
Sem expressão, à espera da ordem de comando.

Vinda do espaço, uma voz sem rosto mostrava,
    Monótona e árida como o próprio lugar,
Ser justa, por estatística, uma certa causa.
    Não se ouviu ninguém discutir ou aclamar;
    Coluna após coluna, nuvem de pó no ar,
Foram-se marchando, submissos a uma fé
Cuja lógica os levou, alhures, ao revés

Por cima do ombro dele buscava
    Ela devotamentos rituais
E novilhas com guirlandas de alvas
    Flores, libações sacrificiais,
Mas ali, no luzente metal,
    Em vez de altar avistou somente,
À luz fremente da forja dele,
    Uma cena muito diferente.

Área cercada de arame farpado; dentro,
    Oficiais passeavam seu tédio (fez piada, um);
Sentinelas suavam no calor intenso:
    Imóvel, uma turba de gente comum
    Olhava de fora, sem comentário algum,
Três pálidas figuras serem amarradas
A três estacas em pé, no chão fincadas.

A massa e majestade deste mundo, tudo
    Quanto tenha algum peso e pese sempre o mesmo
Está na mão dos outros; eles eram miúdos,
    Não podiam esperar ajuda, que não veio;
    O que seus inimigos queriam já foi feito,
E o pior: perderam o seu próprio orgulho, mortos
Como homens bem antes da morte dos seus corpos.

Por cima do ombro dele buscava
    Atletas entregues aos seus jogos,
Homens e mulheres a mover
    Seus membros docemente no compasso
Da música, cada vez mais rápido.
    Mas no escudo luzente não tinha
A mão dele pintado uma dança
    E sim um campo de ervas daninhas.

Só, sem rumo, um garoto de roupa esfarrapada
    Vagava por aquele ermo, de onde à sua certeira
Pedra uma ave fugira: que moças são violadas
    E que dois meninos esfaquearam um terceiro,
    Eram-lhe axiomas; nada sabiam a respeito
De outros mundos onde as promessas se cumprissem
E onde se chorava se a outrem chorar se visse.

Hefaísto, o armeiro de delgados
    Lábios, foi-se embora manquejando,
Tétis, a dos seios reluzentes,
    Deu um grito de espanto
Diante do que o deus forjara a fim
    De agradar ao filho dela, o forte
Aquiles férreo matador de homens,
    Que tão breve encontraria a morte

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