segunda-feira, 5 de agosto de 2024

Charles Baudelaire: “A que está sempre alegre”

 A que está sempre alegre
Charles Baudelaire
   
Teu ar, teu gesto, tua fronte
 São belos qual bela paisagem;
 O riso brinca em tua imagem
 Qual vento fresco no horizonte.
 
A mágoa que te roça os passos
 Sucumbe à tua mocidade
 À tua flama, à claridade
  Dos teus ombros e dos teus braços.

  As fulgurantes, vivas cores
  De tuas vestes indiscretas
  Lançam no espírito dos poetas
  A imagem de um balé de flores.

Tais vestes loucas são o emblema
  De teu espírito travesso;
  Ó louca por quem enlouqueço,
  Te odeio e te amo, eis meu dilema!
  
  Certa vez, num belo jardim,
  Ao arrastar minha atonia,
  Senti, como cruel ironia,
  O sol erguer-se contra mim;

  E humilhado pela beleza
  Da primavera ébria de cor,
  Ali castiguei numa flor
  A insolência da Natureza.

  Assim eu quisera uma noite,
  Quando a hora da volúpia soa,
  Às frondes de tua pessoa
  Subir, tendo à mão um açoite,

  Punir-te a carne embevecida,
  Magoar o teu seio perdoado
  E abrir em teu flanco assustado
  Uma larga e funda ferida,

  E, como em êxtase supremo,
  Por entre esses lábios frementes,
  Mais deslumbrantes, mais ridentes,
  Infundir-te, irmã, meu veneno!

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