Os bordados de Marie Monnier
Paul Valéry
Dentre as coisas preciosas, umas são produto de um encontro raríssimo de circunstâncias favoráveis: os diamantes, a felicidade e certas emoções muito puras pertencem a esta espécie.
Mas as outras são formadas pela acumulação de uma infinidade de eventos imperceptíveis e contribuições elementares, que absorvem um tempo muito longo e que exigem tanta calma quanto tempo. As pérolas finas, os vinhos profundos e maduros, as pessoas verdadeiramente. consumadas fazem pensar num lento entesouramento de causas sucessivas e semelhantes; a duração do acréscimo de sua excelência tem a perfeição por limite.
O homem, outrora, imitava essa paciência. Iluminuras; marfins profundamente entalhados; pedras duras perfeitamente polidas e nitidamente gravadas; laques e pinturas obtidos pela superposição de uma quantidade de camadas finas e translúcidas; sonetos amorosamente aguardados, voluntariamente retidos, indefinidamente retomados pelo poeta — todas essas produções de uma indústria obstinada e virtuosa não se fabricam mais, e foi-se o tempo em que o tempo não contava. O homem de hoje não cultiva o que não pode ser abreviado. Dir-se-ia que o enfraquecimento nos espiritos da idéia de eternidade coincide com o desgosto crescente com as tarefas longas. Não suportamos mais formar um valor inestimável por meio de um trabalho igual e indefinido como o da natureza. A espera e a constância pesam à nossa época, que tenta livrar-se de sua obra a grandes gastos de energia...
Mas considerem estes painéis maravilhosamente coloridos. Seu brilho aparenta-os as mais rubras produções da vida — aos élitros, às plumas dos pássaros, às conchas, às pétalas.
Nenhuma pintura pode atingir às forças e às delicadezas que os fios de seda tingida, sabiamente associados, fazem aparecer. O ponto acrescido ao ponto compõe insidiosamente uma substância suntuosa. Mesmo a carne é imitada admiravelmente, e a modelagem de um ombro ou de um seio é fruto delicioso de não se sabe quais artifícios de uma agulha.
Nenhuma pintura pode atingir às forças e às delicadezas que os fios de seda tingida, sabiamente associados, fazem aparecer. O ponto acrescido ao ponto compõe insidiosamente uma substância suntuosa. Mesmo a carne é imitada admiravelmente, e a modelagem de um ombro ou de um seio é fruto delicioso de não se sabe quais artifícios de uma agulha.
A bordadeira escolheu seus pretextos em alguns poemas.
Não reclamou nem do esforço nem da duração. Estas belas páginas tecidas de ouro e de seda consumiram vários anos. Há sacrifício e paradoxo sob esta obra de graça e magnificência, na qual a obstinação do inseto e a ambição fixa do místico se combinam no esquecimento de si mesmo e de tudo que não é o que se almeja.
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